Experiência negativa no Camarote .

Respondida
Rio de Janeiro - RJ
12/03/2026 às 22:57
ID: 243142571
TEXTO Sapucai
Durante 15 anos, eu e minha mãe fizemos da Sambódromo da Marquês de Sapucaí o nosso ponto de encontro sagrado.
Todos esses anos, sem faltar um desfile.
Era uma paixão que começou lá atrás, ainda pela televisão e que virou tradição, ritual, memória construída lado a lado.
Mas este ano tudo mudou.
Entre os dias 4 e 5 de dezembro, minha mãe sofreu um AVC e um infarto.
Até aquele dia, apesar dos seus 88 anos, ela era uma mulher ativa, lúcida, independente. Uma mulher que amava viver. E, principalmente, amava a Sapucaí.
Apesar do AVC e das limitações na locomoção, agora utilizando cadeira de rodas, decidimos que não deixaríamos de ir.
Escolhemos o Camarote MAR, onde estivemos em 2025 e tivemos uma boa experiência. Ao longo desses 15 anos conhecemos vários outros camarotes. Sempre fomos bem recebidas.
Para muitos, superação é atributo de atletas ou de pessoas jovens.
Mas eu afirmo: uma mulher de 88 anos, cadeirante, com dores, enfrentando chuva e virando a noite na Sapucaí, isso também é superação. E das grandes.
Só que, desta vez, nada foi como antes.
Nosso pesadelo começou assim que entramos no camarote. O espaço cedido para PCD era um retângulo de aproximadamente 3metros por 5 metros ,e chamar aquilo de espaço adequado é, no mínimo, constrangedor.
Logo na chegada fomos informadas de que apenas uma de nós poderia permanecer acompanhando minha mãe ali.
Compramos três ingressos justamente para que pudéssemos permanecer juntas , eu, minha mãe e minha irmã para que pudéssemos ajudá-la durante toda a noite.
No entanto, fomos informadas logo na chegada de que apenas uma pessoa poderia permanecer no espaço destinado ao PCD.
Ou seja, mesmo tendo adquirido três ingressos e mesmo ela com 88 anos , AVC,mesmo , com o espaço vazio naquele momento, fomos impedidas de permanecer juntas, sendo obrigadas a nos separar .
Ao lado daquele espaço mínimo, o camarote destinado a vips e artistas ocupava quase um quarto de toda a estrutura. Uma comparação que falava por si só.
Quem cuidava da área PCD era um segurança. Não havia um responsável preparado, com conhecimento para prestar assistência a pessoas com deficiência. E convenhamos: segurança não é profissional de apoio à acessibilidade.
Minha mãe, a única cadeirante ali ,ficou sentada com pessoas em pé à sua frente, bloqueando completamente sua visão.
Fomos nós que tivemos que pedir espaço para posicionar a cadeira próxima à grade.
As demais pessoas acomodadas ali pasmem: estavam em pufes, sem encosto, para passar a noite inteira.
Fomos informadas que poderíamos levar a cadeira de rodas, mas que haveria uma cadeira disponível no camarote ,que não poderia sair daquele espaço. Quando solicitamos essa cadeira, a brigada informou que existia apenas uma para os três andares. E naquele momento estava sendo usada por outra pessoa que passava mal.
Mas o que mais nos indignou foi a postura de alguns brigadistas, seguranças e, principalmente, do público ao redor. Havia uma percepção de que aquele espaço era um privilégio.
Mesmo não podendo permanecer ali constantemente, precisávamos nos revezar próximas à minha mãe para ajudá-la ,levando bebida, comida ou conduzindo-a ao banheiro com enorme dificuldade. A superlotação e a má vontade de alguns tornavam tudo mais hostil.
Em determinado momento, pessoas que assistiam atrás da faixa destinada a PCD insinuaram que eu e minha irmã estávamos usando um espaço privilegiado para ter melhor visão do desfile. Inadmissível.
Mais tarde, a situação se agravou. Uma família , e um homem com mais de 1,80m , começou a me empurrar com o próprio corpo para que eu saísse do local, simplesmente porque eu havia ido buscar água para minha mãe, que estava com algo no olho, enquanto minha irmã a auxiliava.
Ele me intimidava fisicamente. Eu, completamente transtornada, tentando proteger minha mãe.
O segurança disse que chamaria ajuda. Mas naquele momento o sentimento já estava instalado: aquele não era um lugar para nós.
Era como se minha mãe , agora cadeirante, agora idosa, agora vulnerável , devesse aceitar que aquele espaço não era mais para ela. Que deveria ficar em casa. Que ali era território dos privilegiados, dos saudáveis, dos que performam perfeição.
Foi ali que eu entendi algo doloroso.
Quando ela estava em pé, era exemplo. Era admirada. Era inspiração.
Agora, na cadeira de rodas, tornou-se incômoda.
Das cinco horas que permanecemos ali, apenas um homem ,moreno, cerca de 40 anos , aproximou-se e disse que ela merecia estar ali sobre um tapete vermelho.
Uma única pessoa enxergou o que sempre esteve ali: dignidade.
A Sapucaí sempre foi nosso lugar de encontro, de alegria, de pertencimento.
Mas este ano ela nos mostrou uma face cruel: a de uma sociedade que aplaude a superação desde que ela não incomode, desde que não precise adaptar nada, desde que não confronte privilégios.
Minha mãe continua sendo a mesma mulher.
Forte. Apaixonada. Guerreira.
E se há algo que precisa mudar, não é ela.
É o mundo ao redor dela.
SIM ,ELA MERECE TAPETE VERMELHO .
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Resposta da empresa
15/04/2026 às 09:56
Olá, Tatiana.
Lamentamos pelo que você e sua mãe vivenciaram e pedimos desculpas pelo ocorrido.
Todos que frequentam o Camarote Mar merecem ser tratados com respeito, conforto e dignidade, sem exceção. Isso inclui, de forma integral, pessoas com mobilidade reduzida e seus acompanhantes. O fato de você ter percebido incômodo por parte de outras pessoas no entorno da área PCD é algo que nos preocupa e que não deve acontecer dentro do nosso espaço.
Esse relato foi encaminhado para análise interna com foco em dois aspectos: a adequação da estrutura física destinada ao público PCD e a conduta das equipes presentes nessas áreas, para garantir que o ambiente seja acolhedor em todos os momentos.
Ficamos à disposição pelo e-mail [email protected] para mais esclarecimentos.
Atenciosamente,
Equipe Camarote Mar