Abandono tratamento infertilidade

Não respondida
Belo Horizonte - MG
02/01/2026 às 01:33
ID: 236371849
Relato Vivências de 2025 no processo de tentativa de engravidar
Escrevo este relato em um momento de insônia, mais uma vez. O sono não vem porque a dor ainda está presente. A dor de não ter sido ajudada quando procurei ajuda. E, principalmente, a dor de ter sido abandonada no meio de um tratamento médico que envolvia meu corpo, minha saúde mental e um dos processos mais sensíveis da vida de uma mulher: a tentativa de engravidar.
O ano de 2025 foi um dos mais difíceis da minha trajetória pessoal. A decisão de buscar acompanhamento médico para engravidar não foi simples nem impulsiva. Ela veio após muitas reflexões, inseguranças, medo do tempo passando e do peso emocional que acompanha a infertilidade. Ainda assim, segui em frente confiando que encontraria acolhimento, orientação técnica adequada e responsabilidade profissional.
Desde o início, a busca por esse acompanhamento foi difícil. Consultas demoradas, informações fragmentadas, orientações pouco claras e a sensação constante de que eu precisava insistir para ser ouvida. Mesmo assim, segui. Quem deseja engravidar aprende, muitas vezes, a suportar o cansaço físico e emocional em nome da esperança.
No dia 03 de abril de 2025, realizei uma consulta médica online, devidamente agendada por meio do convênio Unimed, com o Dr. *****, vinculada ao Centro de Fertilidade Saab. Nessa consulta, foi prescrito o uso de Clomifeno (Clomid), com a orientação de que seriam solicitados exames de ultrassonografia seriada para acompanhamento do ciclo ovulatório.
Iniciei o tratamento conforme prescrito, confiando que haveria acompanhamento próximo, como é necessário em um tratamento que interfere diretamente no funcionamento hormonal e reprodutivo.
No entanto, esse acompanhamento não aconteceu.
Constam em meu aparelho celular registros claros das tentativas de contato realizadas após a consulta. Nos dias 07, 08 e 10 de abril de 2025, entrei em contato por meio do aplicativo WhatsApp, canal previamente utilizado para comunicação profissional, solicitando orientações sobre a realização dos exames de ultrassom e informando, inclusive, que eu já estava em uso do medicamento prescrito e me aproximava do último comprimido do tratamento.
As mensagens foram objetivas, respeitosas e claras. Em nenhuma delas houve resposta. Não recebi orientação, não recebi solicitação de exames, não recebi retorno sobre continuidade ou suspensão do tratamento, tampouco qualquer encaminhamento para outro profissional ou serviço.
Houve silêncio. Houve ausência. Houve abandono.
Permaneci em uso de um medicamento de indução da ovulação sem acompanhamento médico, situação que gerou insegurança clínica, medo de possíveis riscos e sofrimento emocional significativo. A sensação era de estar desamparada justamente no momento em que mais precisava de suporte profissional.
Esse abandono não foi apenas uma falha técnica. Ele teve impacto direto e profundo sobre minha saúde mental. O processo de tentar engravidar já é, por si só, carregado de ansiedade, expectativa, frustração e vulnerabilidade emocional. Estar sozinha nesse caminho, sem orientação médica, potencializou sentimentos de angústia, impotência e desamparo.
Passei a ter noites mal dormidas, crises de ansiedade, pensamentos recorrentes e a sensação constante de estar carregando sozinha um peso que deveria ser compartilhado com um profissional responsável pelo cuidado. A confiança foi abalada. A esperança ficou fragilizada. O corpo seguiu, mas a mente entrou em exaustão.
Escrevo hoje sem sono, não apenas pelo cansaço físico, mas porque a dor ainda não foi elaborada. Dói lembrar que, mesmo buscando ajuda, mesmo seguindo orientações, mesmo confiando, eu não fui cuidada como deveria. Dói perceber que, em um momento tão sensível da minha vida, fui deixada sem resposta, sem apoio e sem encerramento adequado de um tratamento em curso.
Este relato não nasce do ressentimento, mas da necessidade de dar nome ao que vivi. Do direito de registrar que houve falha na continuidade do cuidado, omissão de acompanhamento e impacto real na minha saúde emocional. Mulheres em processo reprodutivo não são apenas protocolos, números ou tentativas são pessoas inteiras, com história, medo, esperança e limites.
O ano de 2025 deixou marcas profundas, mas também trouxe clareza. Clareza sobre a importância da ética, da responsabilidade profissional e da continuidade do cuidado em saúde. E, sobretudo, clareza sobre a necessidade de não silenciar experiências que machucam.
Registrar essa vivência é uma forma de cuidado comigo mesma. É reconhecer que o que vivi foi real, foi difícil e me atravessou profundamente.