A Cartilha do Poder: Como a FEB Transformou o Espiritismo em uma Igreja sem Altares

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Palmas - TO
23/06/2026 às 16:45
ID: 252167829
A história oficial da FEB é contada como uma epopeia de superação: reuniões em casas alugadas, perseguições, crises financeiras, a salvação por Bezerra de Menezes. A narrativa é a de uma instituição que sobreviveu contra todas as adversidades. Mas, lida com atenção, essa mesma história revela que, desde o nascimento, a "Casa de Ismael" carrega um DNA muito mais político do que doutrinário. O "Grupo Ismael" não era um coletivo de estudos desinteressados; era um núcleo de poder que, ao "acompanhar o apóstolo" Bezerra de Menezes, integrou-se à FEB e a partir dali jamais largou o osso. O que a FEB chama de "unificação" é, na prática, a hegemonia ininterrupta de uma facção sobre as demais desde *******.
A estrutura de governo é uma catedral burocrática. Conselho Superior, Conselho Diretor, Conselho Fiscal, Diretoria Executiva, Conselho Federativo Nacional uma multiplicação de instâncias que faria inveja ao Vaticano. O Conselho Superior, "órgão máximo", tem quarenta membros, entre eles todos os diretores, conselheiros fiscais e ex-presidentes. Ou seja, quem fiscaliza está subordinado a quem é fiscalizado, quem decide é também quem executa. A pergunta "quem controla o controlador?" tem resposta clara no artigo 21: ninguém de fora. O círculo se fecha em si mesmo, numa autofagia de poder que se renova a cada cinco anos com a possibilidade de reeleição. Perpétua. Sem limite.
A lista de 16 presidentes, exposta com reverência quase hagiológica, é um memorial à vitaliciedade disfarçada. Presidentes se sucedem, mas os nomes se repetem nos conselhos, nos cargos de vice, nas diretorias adjuntas. A dança das cadeiras é coreografada para que ninguém realmente saia de cena. O atual presidente, Jorge Godinho Barreto Nery, é herdeiro de uma linhagem que remonta a *******, e o mecanismo de sucessão garante que o próximo será alguém já ungido pelo círculo interno, devidamente referendado por uma Assembleia Geral que é, ela mesma, controlada pelo Conselho Superior. A "democracia espírita" é um teatro de sombras.
A sede em Brasília é o símbolo máximo dessa metamorfose. Três edifícios: Ismael, Colmeia e Unificação. O prédio central abriga o "Cenáculo" nome sugestivo para uma instituição que se pretende herdeira direta do colégio apostólico. São 5.******* metros quadrados de área construída, biblioteca de obras raras, estúdio de TV, auditório polivalente, espaço cultural, brinquedoteca. Tudo "aberto ao público gratuitamente", como faz questão de frisar o texto. Mas essa generosidade não esconde o óbvio: o Espiritismo, que Allan Kardec imaginou como uma doutrina sem templos, sem altares e sem sacerdotes, ergueu para si um templo monumental, com altares de mármore e sacerdotes de terno e gravata. O que não se faz com incenso, faz-se com a liturgia das reuniões de conselho.
A programação de estudos é exaustiva e reveladora. Evangelização da Infância, da Juventude, ESDE, EADE, Obras Básicas, André Luiz, Joanna de Ângelis, "O Evangelho Redivivo" um cardápio que, à primeira vista, parece atender a todos os gostos. Mas é um cardápio fechado. Quem define o que é "estudo sistematizado"? Quem escolhe quais obras são "básicas" e quais autores são dignos de estudo? A resposta está no mesmo círculo que controla a instituição. A doutrina do "livre exame" kardequiano foi substituída por um currículo oficial. Fora dele, é só "espiritualismo" palavra que, no glossário velado da FEB, significa "coisa de segunda categoria, potencialmente perigosa".
A seção de "Dúvidas Frequentes" é um primor de sutileza autoritária disfarçada de didatismo. A definição de Espiritismo é pinçada cirurgicamente de Kardec para excluir tudo o que não está nas cinco obras básicas. Chico Xavier, Divaldo Franco, Yvonne Pereira fenômenos mediúnicos que movimentam milhões de brasileiros são reduzidos a coadjuvantes não mencionados. A FEB é a única intérprete legítima. E quando a pergunta é "Espiritismo é o mesmo que Umbanda ou Candomblé?", a resposta é um não seco, seguido da informação de que aquelas são "doutrinas espiritualistas". Tradução: são primas pobres, toleradas, mas não convidadas para a ceia no Cenáculo.
O Atendimento Espiritual tem "Diálogo Fraterno", "Explanação do Evangelho", "Irradiação", "Passe" uma linha de montagem de assistência espiritual que funciona de segunda a domingo, com escala, horário e senha virtual. A burocracia do consolo. O sofredor é acolhido, orientado, recebe o passe e sai pela porta lateral, enquanto no prédio ao lado o Conselho Federativo Nacional debate as diretrizes da "unificação". O que começou com operários reunidos em barracões de madeira para estudar o Evangelho terminou em uma central de serviços espirituais cronometrados.
A transparência financeira é a cereja do bolo. A FEB mantém uma editora que publica e distribui as obras "oficiais", uma livraria que as vende, e uma estrutura que, evidentemente, gera receita. Mas o Conselho Fiscal é composto por membros que são, simultaneamente, parte do Conselho Superior. Quem audita as contas são os mesmos que as produzem. A "gratuidade" da prática espírita, orgulhosamente exibida nas Dúvidas Frequentes, convive com a venda de livros, a realização de eventos pagos e a arrecadação de contribuições. O "Dai de graça o que de graça recebestes" foi atualizado para "Dai de graça, mas comprai o livro oficial".
A FEB não é uma exceção; é a matriz de um modelo replicado em todas as federativas estaduais. O Espiritismo no Brasil foi capturado por uma elite que se autonomeou guardiã da pureza doutrinária. Onde deveria haver livre pensamento, há cartilha. Onde deveria haver fraternidade horizontal, há uma pirâmide hierárquica que vai da FEB às federativas estaduais, das federativas aos centros, dos centros aos frequentadores esses, os únicos que não votam, não decidem e só aparecem no estatuto como "Associados Contribuintes". O Consolador prometido por Jesus, segundo Kardec, transformou-se em um condomínio de poder com sede em Brasília, endereço SGAN *******, Conjunto F. A simplicidade dos primeiros cristãos não caberia no auditório polivalente.