Goiânia: Contradições entre a imagem de 'Capital Verde' e a realidade de desigualdade, descaso com infraestrutura e má gestão pública.

Reclamação não respondida

Não respondida

Reclamar dessa empresa

Palmas - TO

01/07/2026 às 22:58

ID: 252866273

Goiânia adora se autoproclamar Capital Verde do Cerrado, exibindo medalhas da ONU e aquele selo internacional Tree Cities of the World como se fossem conquista própria, quando na verdade a arborização que resta é herança de um plano urbanístico concebido antes de a cidade ser tragada pela especulação imobiliária. A Prefeitura posa de ambientalista enquanto, no mesmo texto oficial, se admite que a cidade perdeu metade de suas áreas verdes entre 1986 e 2010. E o que fez o poder público? Premiou loteadores que entregam bairros sem calçada, sem esgoto e sem uma única árvore, desde que a taxa de ocupação do solo agrade ao capital. Os 94 m de área verde por habitante são uma média estatística que esconde o fato de que o pobre da região noroeste respira poeira enquanto os condomínios horizontais do sul nadam em jardins. É a matemática cínica da desigualdade: se o rico tem um parque privativo de 10.000 m e o pobre tem zero, a média ainda sobe.

A cidade foi planejada para 50 mil pessoas e hoje tem 1,5 milhão. A Prefeitura, década após década, assistiu ao crescimento desordenado e o apelidou de dinamismo. O trânsito virou inferno, o transporte público é uma humilhação sobre rodas com tarifa entre as mais caras do Brasil e ônibus superlotados , e a solução da gestão municipal foi criar consórcios com empresas que tratam passageiro como carga. Enquanto isso, o mesmo município que não dá conta do básico exibe um aeroporto internacional e se gaba de ser polo estratégico para negócios. Para quem? Para o empresário que pousa, fecha contrato e decola antes do primeiro engarrafamento, deixando os trabalhadores presos na Marginal Botafogo por duas horas.

A propaganda oficial repete que Goiânia tem IDH elevado, mas a própria ONU, em 2010, a classificou como a cidade mais desigual do Brasil e a décima do mundo. A Prefeitura nunca soube ou nunca quis explicar como uma cidade com menos de 4% de incidência de pobreza (segundo seus próprios números) convive com 141 invasões e uma periferia que não para de inchar. A resposta está na maquiagem estatística: pobreza subjetiva não conta, e as famílias removidas das áreas nobres são despejadas para os confins do município, longe dos olhos e dos interesses imobiliários do Setor Bueno. A Prefeitura chama isso de regularização fundiária; Marx chamaria de expulsão branca dos proletários.

Na saúde, a saturação é regra. Hospitais lotados, falta de médicos, e a cesárea comendo solta (quase 70% dos partos) não porque as mulheres goianienses tenham alguma deformidade pélvica coletiva, mas porque convém ao complexo médico-empresarial e à gestão que terceiriza o SUS sem fiscalizar. A Prefeitura não controla, ela contrata. O mesmo vale para a educação, onde a violência nas escolas estaduais beira os 90%, mas o discurso do Goiânia, cidade inteligente ecoa nos auditórios enquanto aluno e professor se trancam em sala de aula.

A segurança pública é um atestado de incompetência administrativa. A cidade bateu recorde de homicídios em 2011, com 37 mortes por 100 mil habitantes o triplo do aceitável pela OMS e a gestão municipal respondeu com.. estatísticas. Os bairros mais violentos são exatamente aqueles abandonados pelo poder público, onde o estado só aparece para fazer operação de desocupação violenta (como no Parque Oeste em 2005) e depois sumir, deixando o território livre para o tráfico e a milícia. A Prefeitura terceiriza a culpa para o governo estadual, mas se esquece de que iluminação pública, guarda municipal e ordenamento urbano são de sua alçada.

O centro histórico, tombado como patrimônio nacional, está largado às traças. O maior conjunto art déco das Américas fora de Miami é tratado como cenário de filme pós-apocalíptico. A Prefeitura faz roteiro turístico, mas não reforma as calçadas, não coíbe o comércio predatório e fecha os olhos para prédios icônicos que viram estacionamento ou igreja evangélica. É a política do tombamento sem manutenção: reconhece o valor histórico para constar no currículo e depois deixa o tempo e os cupins fazerem o resto.

O sistema viário é uma colcha de retalhos que beneficia o automóvel particular e os aplicativos de transporte enquanto a bicicleta e o pedestre são tratados como intrusos. As ciclovias são poucas, desconectadas e servem mais para outdoor de político do que para deslocamento real. E o BRT, aquela obra faraônica que rasgou avenidas e custou milhões, mal conseguiu reduzir o tempo de viagem, mas gerou excelentes contratos de propaganda para a gestão.

A Prefeitura de Goiânia governa com PowerPoint: a cidade é linda nos slides, campeã de prêmios, referência em qualidade de vida. Mas no chão, a realidade é um latifúndio urbano dominado por construtoras, empresários de ônibus e políticos que fazem da máquina pública um balcão de negócios. O verde que a cidade ostenta não é fruto de política ambiental; é resistência de um cerrado que insiste em brotar no meio do asfalto, apesar do poder municipal. Enquanto a gestão não entender que cidade não é plataforma de campanha, Goiânia continuará sendo um monumento à autoenganação: planejada para o futuro, mas administrada com a mentalidade patrimonialista de 1933.

Compartilhe