O que aconteceu
Já que somos ignorados e tratados como indiferentes na escola, vamos nos valer dos canais de comunicação possíveis para sermos ouvidos enquanto consumidores; mas principalmente como seres humanos, afinal, esse deveria ser o foco quando nos referimos à uma instituição de ensino.
Acredito que a premissa da escola, de formar cidadãos críticos, não se aplique a participação das famílias. É impossível se calar diante das incoerências e absurdos que presenciamos em tão pouco tempo.
Deixar um pai que passou por uma insatisfação com questões pedagógicas não atendidas, sentado por cerca de 1 hora no banco em frente à secretaria, sendo ignorado sutilmente por toda equipe pedagógica e direção que passava pelo pátio, é no mínimo desumano.
Formalizamos e fundamentamos educadamente todas as questões que nos fizeram tomar a decisão de pedir a transferência de nosso filho no primeiro mês de aula e somos respondidos dois dias depois com um e-mail de cobrança de boleto com texto em forma de nota de repúdio à nossa insatisfação.
Repúdio deveríamos ter diante das nossas tentativas de diálogo serem ignoradas, das mensagens não respondidas no aplicativo da escola para evitar registros ou da atitude após a transferência de retirar os materiais do aluno solicitados no horário de aula, em uma turma de crianças entre 3 e 4 anos com tamanha insensibilidade, fazendo com que algumas crianças chegassem em casa contando aos pais a situação sem entender nada que havia acontecido. É dessa forma que vocês lidam com os sentimentos das crianças?
Diante da nossa decisão de mudança de escola, meu filho estava há dias sendo preparado para se despedir respeitosamente de sua professora e seus colegas com um cartão porque aqui, nós acreditamos em aprendizado pelo afeto. Estamos tão chocados e estarrecidos com a forma como fomos tratados que não podemos simplesmente ir embora e nos sujeitar a determinadas situações.
Precisamos deixar claro que todo mal estar começou diante do incomodo da direção, que se demonstrou extremamente resistente à indicação da Neuropsicóloga de iniciar um processo de aceleração da criança (procedimento possível junto ao Núcleo de Educação mesmo na Educação Infantil), considerando não somente suas questões intelectuais, como emocionais e também o fato do mesmo se encontrar apenas 15 dias da data de corte para estar no nível 5.
Não compreendemos as atitudes da coordenadora pedagógica, que já estava ciente do processo de avaliação do aluno e teve uma postura completamente diferente quando ouviu detalhadamente todo seu histórico de desenvolvimento na entrevista antes no início do ano letivo. Salientamos que postura da equipe pedagógica se manteve na reunião com a profissional especialista, que teve que ficar se justificando sobre a avaliação e a indicação da aceleração do aluno.
Quando a escola desconsidera e minimiza as inquietações de uma família na reunião pedagógica, impossibilita qualquer possibilidade de diálogo. Tivemos que ouvir - em tom de ironia - da diretora/psicóloga que eu estávamos querendo evitar que nosso filho se frustrasse, que se ele não gosta de se sujar não era uma criança normal e que se ele é organizado demais e não gosta de bagunça, deveria sentar ao lado do aluno mais inquieto para aprender a ser flexível. Realmente, pensando nesse sentido, era dessa frustração com a escola que queríamos poupá-lo.
Tive que educadamente escutar uma diretora/psicóloga desconsiderar até mesmo minha formação docente, como se eu desconhecesse a importância do brincar na infância, ironizando que ler e escrever não era o único pré-requisito para mudar o aluno para o outro nível. Fomos recebidos com uma lista de ponderações pelo simples fato de estarmos preocupados com a adequação dos conteúdos do nível para uma criança já alfabetizada, com idade próxima a linha de corte, em uma turma incompatível com o seu desenvolvimento. Deixo claro que minha única solicitação, foi um olhar atento e construção de um plano educacional individualizado, garantido por lei em qualquer nível de ensino, para todos os estudantes com laudo de identificação de altas habilidades, me dispondo inclusive a buscar um apoio pedagógico especializado para além dos atendimentos da escola para acompanhar e enriquecer o que fosse oferecido na escola.
Ser tratada como ignorante também não estava nos meus planos quando escolhi uma escola com uma metodologia diferente, que se dizia valorizar a infância e o contato com a arte e suas linguagens, que dizia possibilitar que cada aluno de desenvolva dentro de suas possibilidades. Eu não procurei a equipe pedagógica baseada em achismos para falar que meu filho é inteligente ou melhor do que os outros, eu estava tentando explicar que a identificação de altas habilidades em uma criança na Educação Infantil requer um olhar cuidadoso, principalmente depois de observar que meu filho já apresentava, na primeira semana de aula, sinais de que estava tentando se achatar para caber e ser sentir fazendo parte da turma.
Um olhar sensível na educação vai muito além de um laudo e o discurso de normalização das diferenças, que apareceu de forma velada na primeira e única reunião extremamente desagradável que tivemos, nunca será passível de discussão.
Por esses e tantos outros motivos, que decidimos nos retirar. Não temos tempo a perder e tivemos pressa de resolver a situação, porque maior que o dano financeiro, será o dano causado à uma criança com suas necessidades negligenciadas pela escola.
Acredito ser fundamental esclarecer que: os direitos de um estudante com necessidades educacionais especiais não se negociam como um boleto. E afirmo que, mesmo injustamente o valor referente ao pagamento do mês de fevereiro (o qual meu filho frequentou apenas 7 dias de aula porque positivou para COVID - já que vocês não respeitaram os protocolos para suspensão da turma) será pago integralmente, mas a responsabilidade da instituição deveria ser cobrada na mesma medida, em todas as esferas possíveis.
Em 15 anos de docência trabalhando com inclusão, nunca imaginei ter que pagar tão caro para ouvir e presenciar tantos absurdos em uma das escolas mais caras da cidade. Como especialista em Educação Especial e Inclusiva eu recomendo urgentemente uma formação para equipe da Lumen sobre diversidade e um treinamento básico de respeito ao próximo, começando pela direção.
Não ouve uma despedida sequer da coordenação ou da professora da turma - imagino que essa ordem tenha vindo de cima - e suponho que nossa saída tenha sido um grande alívio para gestão da escola, realmente ia dar muito trabalho dar conta das nossas expectativas.
Entretanto, sinto informar que a mãe chata que buscou a melhor escola para seu filho não vai se calar. Assim como meu filho, que ainda está iniciando sua vida escolar como um aluno neurodivergente, outras tantas crianças com as mesmas características devem estar espalhadas pelas turmas da Lumen, com suas necessidades negligenciadas e abafadas - já que a própria direção desdenha de suas habilidades, considerando ser algo tão comum que não precisa de tantas intervenções - porque sua metodologia construtivista dá conta de toda diversidade humana.
Quem sabe mais uma dúzia de mães - talvez leigas no assunto - possam ter se sentido intimidadas em alguma reunião pedagógica, com um discurso bonito e escondido atrás de um sorriso com ares de eu sei o que estou falando.
Eu também sei o que estou falando.
Escola que trata aluno como produto descartável e pai como cliente pagador de boleto, não sabe nada sobre educar.
Sinto muito por meu filho ter passado por essa situação no seu primeiro mês de aula, depois de dois longos anos esperando ansiosamente por esse momento. Sinto mais ainda, porque como professora eu sigo acreditando que a educação não pode aceitar esse tipo de situação. Farei o possível para que nenhuma família precise passar pelo que passamos com vocês.
Agradeço pelo aprendizado e por ter vivido algo tão desagradável, para que eu possa refletir e reforçar aquilo que eu acredito: educar envolve respeito, afeto, sensibilidade e disponibilidade.