O que aconteceu
No ano passado, realizamos um tratamento de fertilização in vitro (FIV) com ovodoação na Mater Prime. Desde o primeiro contato, tivemos uma experiência que, ao longo do tratamento, gerou muitas dúvidas, frustrações e, principalmente, um enorme desgaste emocional e financeiro.
Na primeira consulta, fomos atendidos pela Dra. Heloísa Marçon, que nos apresentou dois tipos de contrato, com valores diferentes. Um deles oferecia óvulos de doadoras exclusivas, jovens, que, segundo nos foi explicado, não estavam em tratamento na clínica e disponibilizariam aproximadamente 12 óvulos. A outra opção era a ovodoação compartilhada, com doadoras que estariam em tratamento para engravidar e compartilhariam seus óvulos com outras pacientes. Optamos pela ovodoação compartilhada por ser aproximadamente R$ 20 mil mais barata.
Após a escolha do contrato, recebemos rapidamente uma ficha referente à provável doadora. A rapidez com que essa doadora foi encontrada nos causou estranheza. Na ficha constavam diversas características físicas semelhantes às minhas (que não são comuns) e a informação de que se tratava de uma jovem que havia congelado seus óvulos para preservação da fertilidade, com a intenção de utilizá-los futuramente para ter seu próprio filho.
No entanto, durante o tratamento, em conversa com uma enfermeira, fomos informados de que a minha possível doadora seria uma paciente casada que também estaria realizando tratamento para engravidar. Essa informação entrou em contradição com o que havia sido apresentado na ficha das características que aceitamos anteriormente e gerou uma dúvida legítima sobre quem, de fato, era a doadora e qual era a origem dos óvulos que estávamos adquirindo.
Também tivemos uma experiência bastante desconfortável durante a entrevista com a enfermeira responsável pelo banco de óvulos. A entrevista nos pareceu muito mais preocupada em avaliar nossa situação financeira do que em compreender nossa história, nossas expectativas e todo o contexto emocional envolvido em um tratamento tão delicado. Chorei muito após a entrevista que não foi nada acolhedora.
Outro ponto que consideramos extremamente importante foi a falta de esclarecimento adequado sobre o chamado funil da FIV. Em nenhum momento nos explicaram de maneira clara que, após o descongelamento, poderia haver perda de óvulos e que nem todos os óvulos fecundados necessariamente evoluiriam até o estágio de blastocisto. Compramos 9 óvulos e, ao final de todo o processo, restou apenas 1 embrião. Na nossa percepção, inclusive, esse embrião apresentava uma evolução muito lenta e uma qualidade bastante questionável.
Também não tivemos informações suficientemente claras sobre os critérios utilizados pela própria clínica para classificar e avaliar a qualidade dos embriões. Essa falta de transparência dificultou nossa compreensão sobre o real potencial daquele embrião.
Mesmo diante de um embrião que, segundo nossa percepção, apresentava desenvolvimento lento e qualidade ruim, a Dra. Heloísa optou por não realizar o teste genético do embrião. Posteriormente, esse embrião resultou em uma gestação que não evoluiu, fui diagnosticada como gestação anembrionada.
Todo esse processo foi extremamente desgastante. Permaneci durante meses utilizando hormônios e outros medicamentos, acreditando que a gestação poderia evoluir. Tivemos um beta-hCG positivo que não apresentou a evolução esperada e, mesmo assim, ficamos por um longo período sem o suporte e o acompanhamento que considerávamos necessários. Esperamos meses tomando medicações desnecessárias até que a gestação fosse finalmente descartada.
Durante o tratamento, utilizamos diversas injeções de enoxaparina, medicamentos e injeções de alto custo que foram indicados dentro do acompanhamento alguns comprados da Mater Prime com valores altíssimos. Até hoje apresento nódulos nos locais das aplicações, o que representa mais uma consequência física de todo esse processo.
Outro aspecto que nos decepcionou profundamente foi a ausência de qualquer garantia ou suporte efetivo diante do resultado. Assinamos diversos documentos, realizamos o tratamento e, ao todo, gastamos mais de R$ 60 mil, considerando FIV, medicamentos, transporte, hospedagem e demais despesas relacionadas ao tratamento.
Depois de todo esse investimento financeiro, emocional e físico, sentimos que ficamos praticamente sem suporte e sem respostas satisfatórias. Quando questionamos a Dra. Heloísa sobre o motivo de uma evolução tão ruim dos óvulos e embrião a resposta que recebemos foi, basicamente, que nem ela sabia explicar o que havia acontecido.
Questionamos a doutora Heloísa pelo fato de todos exames do meu esposo estarem ótimos e que a possível doutora seria jovem e ter um resultado tão ruim.
É justamente essa falta de respostas que torna toda a experiência ainda mais frustrante. O que esperávamos, era transparência, informações claras desde o início, acompanhamento adequado, explicações técnicas sobre cada etapa, critérios objetivos para avaliação dos embriões e suporte diante de um resultado tão decepcionante.
Nossa experiência foi marcada por uma enorme decepção, tanto pelo resultado do tratamento quanto pela forma como todo o processo foi conduzido. Além da perda financeira superior a R$ 60 mil, tivemos um desgaste emocional muito grande e consequências físicas decorrentes dos medicamentos realizados.
O que mais nos incomoda é a sensação de que tomamos decisões importantes sem receber todas as informações necessárias para compreender os riscos, as possibilidades reais e as limitações do tratamento. Hoje, olhando para todo o processo, permanecem muitas dúvidas que não foram devidamente esclarecidas e a sensação de que poderíamos ter sido melhor orientados antes, durante e depois da FIV.
Nas redes sociais tudo é uma maravilha mas a realidade é bem diferente.