O que aconteceu
Sou profissional da saude e também paciente oncológica. Em períodos em que tenho dificuldade para me alimentar, costumo recorrer a alimentos de fácil consumo, como mingaus e cereais infantis. Faço isso também porque cresci consumindo produtos como **Mucilon, Farinha Láctea e Neston**, que sempre foram associados, na minha percepção como consumidora, à nutrição, crescimento e alimentação infantil.
Ontem, ao fazer compras no supermercado, resolvi olhar com mais atenção os rótulos desses produtos e fiquei bastante surpresa e decepcionada ao constatar que **todos os produtos dessas três linhas que encontrei apresentavam açúcar como segundo ingrediente da lista de ingredientes**.
Como médica, considero essa informação bastante preocupante, especialmente em produtos tradicionalmente associados à alimentação infantil.
Não se trata simplesmente de questionar a presença de açúcar em um alimento. A questão é **o açúcar ocupar uma posição tão relevante na composição de um produto apresentado e percebido pelo consumidor como alimento nutritivo, inclusive para crianças**.
As recomendações atuais de saúde e nutrição são bastante claras quanto à necessidade de reduzir a exposição das crianças ao açúcar. O **Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 anos**, do Ministério da Saúde, orienta que não sejam oferecidos açúcar e alimentos que contenham açúcar às crianças menores de dois anos e recomenda evitar alimentos ultraprocessados.
A **Sociedade Brasileira de Pediatria** também recomenda evitar açúcares adicionados nessa faixa etária, destacando sua associação com excesso de peso, obesidade, cáries e formação precoce da preferência pelo sabor doce. A **Organização Mundial da Saúde** recomenda limitar os açúcares livres a menos de 10% do valor energético diário, com benefícios adicionais quando a ingestão fica abaixo de 5%.
O próprio **Conselho Federal de Nutricionistas** tem se manifestado sobre a preocupação com alimentos ultraprocessados destinados ao público infantil que apresentam excesso de açúcares e outros componentes, especialmente quando sua comunicação pode transmitir ao consumidor a percepção de que seriam opções saudáveis ou adequadas para crianças.
Portanto, não estou questionando uma tendência alimentar ou uma preferência pessoal. Estou questionando uma **escolha de formulação que merece ser explicada diante das recomendações atuais de saúde pública e nutrição**.
### Uma questão de coerência
A situação me causa ainda mais estranheza considerando o posicionamento da Nestlé no campo da nutrição e sua presença histórica junto à comunidade médica.
A relação da empresa com a pediatria brasileira não é apenas uma percepção minha. A própria **Sociedade Brasileira de Pediatria registra há décadas eventos de atualização em pediatria realizados pela Nestlé em parceria com a SBP**, incluindo cursos que reuniram milhares de médicos e abordaram justamente temas como nutrição infantil, alimentação complementar, obesidade, diabetes e crescimento.
A SBP também registra publicamente outras iniciativas de parceria com a Nestlé voltadas à formação médica em nutrição infantil, como o Programa J.Pedia, desenvolvido para residentes de pediatria.
Além disso, materiais institucionais e de eventos médicos da pediatria brasileira identificam empresas privadas como patrocinadoras de congressos e atividades científicas.
Não estou afirmando que essas relações determinem as recomendações científicas das sociedades médicas, nem questionando a legitimidade de patrocínios ou parcerias institucionais. **Mas justamente por a Nestlé ter uma presença tão significativa no ambiente de formação e atualização médica em pediatria, considero legítimo esperar da empresa um padrão ainda maior de responsabilidade, transparência e coerência em relação à composição dos produtos destinados às crianças.**
### Por que isso me preocupa particularmente
Como paciente oncológica, há períodos em que minha ingestão alimentar fica prejudicada e preciso escolher alimentos fáceis de consumir e que contribuam efetivamente para minha nutrição.
Nessas situações, não estou procurando simplesmente calorias. Procuro **densidade nutricional e nutrientes de qualidade**.
Por isso, é particularmente frustrante descobrir que produtos tradicionalmente associados à nutrição infantil podem ter açúcar adicionado ocupando uma posição tão importante na composição.
E essa preocupação não é exclusiva de pacientes. A formação dos hábitos alimentares começa na infância. A exposição frequente ao sabor doce pode contribuir para a formação da preferência por alimentos doces e, dentro de um contexto alimentar inadequado, favorecer maior consumo energético e excesso de peso ao longo da vida.
Isso é especialmente relevante diante da atual epidemia mundial de sobrepeso e obesidade e de suas consequências metabólicas e cardiovasculares.
### O que espero da Nestlé
Gostaria, portanto, de receber um **posicionamento técnico e oficial da Nestlé** sobre essa escolha de formulação.
Gostaria de compreender por que produtos como Mucilon, Farinha Láctea e Neston, que são tradicionalmente associados à nutrição infantil e ao crescimento, apresentam açúcar adicionado como segundo ingrediente; qual é a justificativa nutricional e tecnológica para essa quantidade; e como a empresa entende que essa composição se compatibiliza com as recomendações atuais do Ministério da Saúde, da Sociedade Brasileira de Pediatria, da OMS e das entidades profissionais de nutrição e nutrologia.
Também considero legítimo perguntar se a empresa possui avaliações sobre os efeitos da exposição frequente ao sabor doce e ao consumo de açúcar durante a infância e se existe intenção de rever essas formulações à luz do conhecimento científico e das recomendações nutricionais atuais.
Não espero uma resposta genérica de SAC. Gostaria de receber uma **explicação técnica, clara e fundamentada**.
Como médica, consumidora e paciente que eventualmente utiliza esses produtos justamente em momentos de maior dificuldade alimentar, considero legítimo esperar que um alimento tradicionalmente associado à nutrição infantil tenha uma composição coerente com aquilo que hoje sabemos sobre alimentação saudável.
A Nestlé ocupa uma posição de enorme influência no mercado de alimentos e, particularmente, na alimentação infantil. Por isso, acredito que uma empresa que se apresenta mundialmente como referência em **nutrição, saúde e bem-estar** deve assumir também a responsabilidade de explicar e justificar escolhas de formulação que podem parecer incompatíveis com as recomendações atuais de saúde infantil.
**Aguardo um posicionamento oficial da Nestlé.**
Reclamações parecidas
4Interações da reclamação
Nestlé respondeu
09/10/2026 às 15:21
Olá, Karen.
Agradecemos seu contato, pois consideramos muito importante acompanhar as opiniões dos nossos consumidores.
Direcionamos sua manifestação para a área responsável pelo assunto exposto.
Nosso serviço permanece aberto para todos os consumidores atentos como você, sempre dispostos a colaborar com observações sobre nossos serviços.
Atenciosamente,
SERVIÇO NESTLÉ AO CONSUMIDOR
https://www.nestle.com.br/site/faleconosco
Telefone gratuito: 0800 770 2459 de segunda a sexta-feira das 8h às 17h
Consumidor respondeu
13/10/2026 às 11:43
Nao responderam absolutamente nada.
É muita [Editado pelo Reclame Aqui]