Em réplica

Valor social sem verificação de renda e impossibilidade de reajuste

Terappia

cidade: Colombo

O que aconteceu

Sou psicólogo cadastrado no Terappia a quase um ano.

O Terappia oferece a possibilidade de atendimentos com valor social, o que considero uma iniciativa muito importante. O problema é que a plataforma não realiza nenhuma verificação da renda ou da condição financeira do paciente para saber se ele realmente se enquadra nessa modalidade.

Já recebi pacientes pela própria plataforma que informaram ter renda superior a R$ 10 mil por mês, mas que estavam buscando atendimento pelo valor social. Na minha visão, isso foge completamente da finalidade de um atendimento destinado a pessoas que realmente não possuem condições de pagar o valor integral.

O problema fica ainda maior porque, conforme o próprio comunicado do Terappia de 06/07/2026, o profissional não pode alterar posteriormente o valor anunciado no perfil. Ou seja, a plataforma não verifica se o paciente realmente precisa do valor social e, quando o profissional identifica que ele não se enquadra, também não permite simplesmente reajustar o valor.

Isso acaba colocando o profissional em uma situação muito complicada.

Acho importante que a plataforma encontre uma forma de verificar minimamente a condição financeira dos pacientes que procuram valores sociais. Não considero justo que um horário disponibilizado por um psicólogo com valor reduzido para ajudar pessoas de baixa renda seja utilizado por alguém que possui condições financeiras muito superiores.

Isso é um desrespeito ao profissional que oferece seu trabalho por um valor social e, principalmente, às pessoas que realmente precisam desse tipo de atendimento.

Gostaria de saber se o Terappia pretende criar algum sistema de verificação de renda ou algum procedimento para que o profissional possa solicitar a reavaliação do enquadramento do paciente no valor social.

Reclamações parecidas

4

Interações da reclamação

  1. Terappia respondeu

    22/09/2026 às 18:44

    Olá Eduardo,

    Agradecemos pela manifestação, pois ela nos permite esclarecer publicamente um ponto importante sobre o funcionamento do Terappia.

    Primeiramente, é necessário corrigir uma premissa presente na sua reclamação: o valor disponibilizado na plataforma não constitui benefício assistencial público condicionado à comprovação de renda, tampouco existe, na regulamentação profissional da Psicologia, um limite salarial que determine quem pode ou não ser atendido por valor social ou determinado honorário.

    O Terappia é uma plataforma privada de divulgação profissional que possui uma política própria de valores acessíveis, cujos psicólogos se cadastram por espontânea vontade. O paciente consulta os profissionais disponíveis e escolhe livremente aquele que melhor atende às suas necessidades. A plataforma não exige e jamais exigirá comprovantes de salário, declaração de Imposto de Renda, extratos bancários ou documentos financeiros para permitir que uma pessoa procure atendimento psicológico.

    Essa decisão não decorre de omissão. Trata-se de uma escolha que envolve a privacidade, proporcionalidade e o respeito ao usuário.

    A criação de um sistema de verificação financeira exigiria que o Terappia passasse a coletar e tratar dados pessoais patrimoniais de milhares de pessoas apenas para decidir quem poderia ou não ser atendido. A LGPD exige que qualquer tratamento de dados pessoais observe finalidade específica, necessidade, proporcionalidade, transparência e não discriminação. Portanto, não existe fundamento para coletarmos informações financeiras de usuários quando elas não são necessárias para a finalidade principal da plataforma, que é conectar pessoas a psicólogos.

    Além disso, renda mensal não é sinônimo de disponibilidade financeira. Saber que alguém recebe determinado salário não permite concluir quanto essa pessoa pode gastar mensalmente com saúde mental. Existem despesas familiares, dependentes, dívidas, tratamentos de saúde, custos habitacionais, alimentação e inúmeras outras realidades individuais que não caberia ao Terappia nem ao profissional presumir a partir de um único número.

    Em seu art. 4, o Código de Ética do Psicólogo também não estabelece prova de renda, faixa salarial obrigatória ou triagem socioeconômica como condição para atendimento por valores reduzidos e o psicólogo deve assegurar a qualidade do serviço independentemente do valor acordado.

    O mesmo Código estabelece, em seu art. 3, que o psicólogo, ao ingressar ou permanecer em uma organização, deve considerar sua missão, filosofia, políticas e normas. Caso entenda que essas condições são incompatíveis com sua prática profissional, cabe a ele decidir se deseja permanecer naquele contexto. Portanto, enquanto optar por participar da plataforma, todos devem respeitar a política de valores determinada para aquele ambiente.

    Também não existe obrigação de aceitar todo contato recebido. O profissional mantém sua autonomia para avaliar sua disponibilidade e decidir se iniciará determinado acompanhamento. O que não é permitido é aceitar o paciente pelo valor publicamente anunciado e, posteriormente, querer aumentar a cobrança porque concluiu, por iniciativa própria, que aquela pessoa pode pagar mais.

    Essa prática, além de proibida contratualmente, seria incompatível com a transparência que buscamos preservar. O Código de Defesa do Consumidor assegura informação clara sobre preços e estabelece que uma oferta suficientemente precisa integra a contratação, além de proibir comunicações capazes de induzir o consumidor em erro quanto ao preço.

    Por isso, o Terappia não pretende implantar um sistema destinado a classificar pacientes entre aqueles que merecem ou não merecem ser atendidos por determinado valor com base exclusivamente em seu salário mensal.

    Nosso propósito é ampliar o acesso à saúde mental sem transformar a busca por psicoterapia em uma investigação patrimonial do usuário.

    Se determinado profissional entende que os valores praticados na plataforma não são mais adequados à sua realidade profissional, respeitamos integralmente essa decisão. Nesse caso, ele pode optar por não permanecer na plataforma.

    O que não consideramos adequado é transferir ao paciente a responsabilidade de ter que provar que é suficientemente incapaz economicamente para poder utilizar o valor que o próprio profissional decidiu anunciar na plataforma, por sua livre e espontânea decisão profissional.

    Seguimos abertos a sugestões que aprimorem o Terappia, mas qualquer mudança precisa respeitar simultaneamente a ética profissional, a proteção de dados, a transparência na oferta e a dignidade dos usuários.

    Atenciosamente,

    Equipe Terappia

  2. Consumidor respondeu

    22/09/2026 às 19:03

    Olá, equipe Terappia.

    Agradeço a resposta e os esclarecimentos. Entendo o ponto apresentado sobre privacidade e também concordo que não existe, no Código de Ética, uma faixa salarial que determine quem pode ou não receber um valor reduzido. Esse não foi exatamente o ponto da minha reclamação.

    O que estou questionando é a forma como a plataforma estrutura essa modalidade e, principalmente, a ausência de qualquer mecanismo para o profissional lidar com situações em que percebe que o valor social não corresponde à realidade econômica apresentada pelo paciente.

    O próprio Código de Ética, no Art. 4, estabelece que, ao fixar sua remuneração, o psicólogo deve levar em conta a justa retribuição pelos serviços prestados e as condições do usuário. Também determina que o valor seja comunicado ao usuário antes do início do trabalho.

    Não estou defendendo que o psicólogo possa aumentar arbitrariamente o valor depois que o atendimento foi iniciado. A questão é anterior: como o profissional exerce sua autonomia na definição dos próprios honorários quando a plataforma estabelece previamente o valor e não oferece nenhuma alternativa para situações específicas?

    Também considero importante destacar que a forma como o Terappia estrutura essas modalidades acaba colocando um peso muito grande sobre o profissional. O psicólogo oferece seu tempo, formação, experiência e responsabilidade técnica, mas encontra valores previamente determinados e pouca margem para adequá-los às particularidades de cada atendimento.

    Sobre a colocação de que, caso o profissional não concorde com as condições, ele pode simplesmente deixar a plataforma, acredito que isso não responde ao problema apresentado. Uma crítica a uma política não significa que o profissional esteja obrigado a permanecer na plataforma, mas sim que ele tem o direito de questionar uma regra que considera inadequada e sugerir melhorias.

    Se a única solução apresentada para qualquer discordância for não participe, não existe espaço real para diálogo ou aprimoramento das condições oferecidas aos profissionais.

    Também considero importante olhar para essa questão dentro de um contexto maior. A Psicologia no Brasil vem buscando, há anos, maior reconhecimento da profissão, melhores condições de trabalho e uma valorização compatível com a formação e a responsabilidade envolvidas na atuação psicológica. Por isso, embora eu compreenda que o Terappia seja uma empresa privada e possua suas próprias regras, algumas dessas políticas acabam passando a impressão de caminhar em sentido contrário a esse movimento de valorização do profissional.

    Não sou contrário à existência de modalidades acessíveis. Pelo contrário, considero importante ampliar o acesso à psicoterapia. O que questiono é um modelo em que essa acessibilidade acaba sendo sustentada quase exclusivamente pela redução do valor recebido pelo profissional, sem mecanismos que permitam equilibrar essa relação.

    Também não defendo que a plataforma passe a exigir documentos financeiros de todos os usuários. Existem alternativas menos invasivas, como critérios mais claros para a modalidade, declaração de necessidade econômica ou um mecanismo para o profissional solicitar uma reavaliação do enquadramento.

    Meu questionamento, portanto, não é sobre impedir alguém de buscar um atendimento com valor reduzido, mas sobre dar ao profissional algum espaço de autonomia e segurança para lidar com situações que não estão previstas pela plataforma.

    Espero que a Terappia considere também essa perspectiva ao avaliar suas políticas, especialmente porque são os psicólogos que efetivamente prestam o serviço e assumem a responsabilidade técnica pelo atendimento.